

Eu sei dum craveiro
"A partir da hora de jantar, quando não se distingue o ventinho nas árvores, a Rua Gonçalves Crespo recebe um pelotão de travestis e raparigas da vida. Discutem encostadas aos automóveis, compõem malhas de meias com uma falangeta de cuspo, tropeça-se no perfume como um obstáculo sólido. Algumas têm lhos cheios de infância por trás da pintura. Marcas de agulhas nos braços magros que coçam as comichões da heroína, calcanhares que vacilam nos tacões. Um chofer de táxi parlamenta com um travesti de nádegas ao léu e cabeleira tão platinada que encandeia. Pensando melhor ninguém tem olhos cheios de infância por trás da pintura, sou eu que sou parvo (...) Aqueles que me observam na Rua Gonçalves Crespo ou nem obsernam, avaliam são duros e secos. De madeira que a droga apodreceu por dentro e vai roendo, roendo. Qual infância! A infância é um luxo de quem possui tempo para a ter tido, uma saudade retrospectiva e enternecida de quando não há fome (...) Escreve olhos cheios de infância, anda. Assim como assim talvez te ajude a viver."
"- Deixa-te de fantasias líricas
"À questão aflita
"Quando as circunstâncias me obrigam a pensar em mim encontro um homem tão aselha com os sentimentos como outros são desajeitados com as mãos. Não sou capaz de enrroscar um parafuso de ternura sem que a chave me escape e a menor martelada de impaciência é os meus dedos que aleija. De modo que, se a psicologia for a arte da adaptação, deveria usar óculos."
"Julgo que me tornei escritor porque em criança o meu pai me curava as gripes com sonetos em lugar de aspirinas: pela parte da boca que o cachimbo não ocupava saíam ao mesmo tempo fumaças e tercetos cujo efeito medicinal, somado às papas de linhaça da minha mãe, me mergulhavam a pouco e pouco numa espécie de coma rimado, do qual me não libertei totalmente visto que respondo aos polícias das multas em alexandrinos contados pelos dedos no capot do carro."
HOMENS QUE ESTÃO COM GRIPE
"Sentava-me no chão ouvindo a terra, os grilos que cantavam o silêncio cerzindo pedras e sombras, cerzindo as nuvens contra o telhado da casa e a voz da minha avó num dos quartos de cima, de modo que mal os grilos se calavam tudo estava certo, as coisas em harmonia umas com as outras, a minha respiração com elas e então fechei os olhos e por um momento sem tempo fui feliz."
"O dedo imenso e estúpido do professor primário a procurar-me entre as carteiras a pretexto dos afluentes da margem esquerda do Tejo ..."
" A minha tia ensinava-me solfejo, regulava o metrónomo e aquele dedo, imenso e estúpido também, para a direita e para a esquerda numa teimosia cardíaca."