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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Manuel Alegre à Presidência


Um rosto
um pensamento
uma palavra

LIBERDADE

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

Manuel Alegre

domingo, 7 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de junho de 2009

Tal avô ... tal neto

Tal avô
tal neto
regresso
passeio completo.

A crise e o comércio ambulante


A procura do sol
a procura da sombra
encontros de repetidos
desencontros
dos nús exibidos
com os vestidos.



sábado, 28 de fevereiro de 2009

Brincando com uma concha



A concha enquanto cenário de vida.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Olhos cheios de infância"

"A partir da hora de jantar, quando não se distingue o ventinho nas árvores, a Rua Gonçalves Crespo recebe um pelotão de travestis e raparigas da vida. Discutem encostadas aos automóveis, compõem malhas de meias com uma falangeta de cuspo, tropeça-se no perfume como um obstáculo sólido. Algumas têm lhos cheios de infância por trás da pintura. Marcas de agulhas nos braços magros que coçam as comichões da heroína, calcanhares que vacilam nos tacões. Um chofer de táxi parlamenta com um travesti de nádegas ao léu e cabeleira tão platinada que encandeia. Pensando melhor ninguém tem olhos cheios de infância por trás da pintura, sou eu que sou parvo (...) Aqueles que me observam na Rua Gonçalves Crespo ou nem obsernam, avaliam são duros e secos. De madeira que a droga apodreceu por dentro e vai roendo, roendo. Qual infância! A infância é um luxo de quem possui tempo para a ter tido, uma saudade retrospectiva e enternecida de quando não há fome (...) Escreve olhos cheios de infância, anda. Assim como assim talvez te ajude a viver."
António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas