sábado, 20 de outubro de 2007

Metáfora

O corpo carrega sempre duas caixas:
uma caixa de ferramentas e uma caixa de brinquedos.
Essas duas caixas definem os objectivos da Educação.

Caixa das ferramentas: nela se encontram os objectos necessários para compreender e inventar. Úteis, indispensáveis à sobrevivência. Nela se encontram guardadas desde coisas muito concretas, como fogo, redes, facas, machados, hortas, bicicletas, computadores, até coisas abstractas, como palavras, operações matemáticas, teorias científicas.

Caixa de brinquedos: nela se encontram objectos inúteis, que sedo inúteis, são usados pelo prazer e pela alegria que produzem: música, literatura, pintura, dança, brinquedos, jardins, instrumentos musicais, poemas, livros, culinária ...

Com a caixa das ferramentas e a caixa de brinquedos, os seres humanos não só sobrevivem como sobrevivem com alegria. A caixa de ferramentas, sozinha, produz poder sem alegria. Vida forte mas vida boba, sem sentido. Os seres humanos ficam embrutecidos. O conhecimento, sozinho, é embrutecedor. A caixa de brinquedos, sozinha, está cheia de prazeres e alegrias. Mas os prazeres e alegrias, sozinhos, são fracos. E a vida, sem poder, é vida fraca, incapaz de responder aos desafios práticos da sobrevivência. E vem a morte.

Sábio é aquele que tem as duas caixas ... O homem sábio planta nas hortas coisas boas para comer e viver e planta nos jardins coisas boas de se ver, cheirar, degustar ...

Tarefa do educador: ajudar os discípulos a construir suas caixas de ferramentas e suas caixas de brinquedos ...


Rubem Alves, Estórias maravilhosas de quem gosta de ensinar

O meu Relógio

Revendo registos (cont.)

Revendo registos

Computadores a 3 Dimensões neste Outono

Telemóveis de 4ª Geração

O meu Calendário

Brincando com a Rosa

Viagem dos cegamente obedientes

Consequências de levar à letra
o sítio para onde se é mandado.
É bom ser mal-mandado.

A serenidade do entardecer

O prazer da música



A musicalidade da vida






As engrenagens da vida

Os mecanismos do tempo

Sonhando

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Violoncelo ... para além do tempo

O canto do fogo naquele tempo

Os pesos desses tempos

A "luz" desse tempo

Utensílios do tempo

Mais utensílios desse tempo

Foto de utensílios daquele tempo

Tempo sem tempo

Ah! Que conversa interessante
quase monólogo da velhinha
Ah! Quão seria desconsertante
revelar-lhe a idade que tinha
Conversa ocasional, mas empenhada
sobre os desperdícios do tempo presente
em contraponto com "o nosso tempo"
tempo que em tudo era diferente
dos mais velhos à pequenada
Ah! aquele tempo
em que não havia tempo pr'à gente
tempo da terra ... tempo do gado
tempo ocupado com medida
tempo sempre agitado
sem tempo pra curar uma ferida
Ferida que sangra em abundância
sangue que tempera a erva molhada
choro calado desde a infância
no corpo da mulher, hoje, desgastada
- Ah! mas que maldito é este tempo
que nem tempo dá pr'à conversação
chegou ao fim este meu tempo
o combóio já chegou a S. Romão.

JRocha

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Fantasia musical

Construções

Realizando a utopia

Querer que a vida sorria
mesmo em plena invernia
não é pura utopia
é antes e simplesmente
um desejo mais que ardente
algo que se quer e que se sente
e é comum a toda a gente
O sorriso da vida
não é certamente
o passar a vida a rir
É um avançar, querer ir
cada vez mais pr´à frente
vencendo os escolhos do caminho
sem atropelar o vizinho
É um encher plenamente cheio
é uma realização irrealizável
que fica sempre a meio
e dá uma força inquebrantável
pr'a procurar o outro meio
É em tudo ver nada
que é preciso fazer crescer
e de manga arregaçada
ter força para o fazer
É nunca se dar por satisfeito
considerar o bom como suficiente
é sentir uma vontade no peito
uma determinação forte na mente
para o sorriso construir
e o viver a vida se cumprir.

JRocha

domingo, 14 de outubro de 2007

Procissão

Perto dos episcopais paços
com o passeio apinhado
de povoléu pasmado
passa a procissão dos passos
em passo pesado e pacharrento
sob pálio aparatoso
vai o prior pançudo e pastoso
passeando seu paroquial paramento
Perfilados em pose patética
puritanos putos pegam no pendão
pavoneando sua presunção
perante a população prosélita
Pasme-se o desplante
um pobre em sua pacatez
pintado de palidez
prantou-se perante o petulante padroeiro
pedinchando um pedaço de pão
para poder petiscar
Prometeu não prevaricar
praticar os preceitos da perfeição
Parou apressadamente a procissão
e o padre em postura paranóica
pedindo por uma poção paregórica
para não partir o pedinchão
penitenciou o pedinte impiedosamente
Apressou a passada penosamente
precipitou o fim da procissão
Pardas palmas no pavimento
pisadas pelo pomposo pelotão
perecem na poeira da peregrinação
perdendo sua perene pigmentação.

JRocha